Estúdio11

Desde 30 de dezembro de 2008

16.11.09

Mabeando número 6.

7.11.09

Mother.

4.11.09

O TUMBA

3.11.09

Borun Watu por Amanda Souza

30.10.09

Borun Watu por Esdras Aurélio


27.10.09

Estúdio onze em prosa.

Borun Watu por Carlos Penna.




25.10.09



CARLOS PENNA
LINCOLN PASSOS
LÍLIAN DE FARIA
ESDRAS AURÉLIO
MENINA QUADRINHOS
AMANDA SOUZA
EDUARDO GALETTO
ADÃO DE FARIA
GUILHERME PEDREIRO
RAFAEL CABRAL
CRISTIANNE DE SÁ
DIOGO HENRIQUE
RENAN VIEIRA

12.10.09

Os Botocudos Ou Borun Watu.

Num dia ensolarado às margens plácidas do rio “Watu”, um índio de nome Pocrane, muito assustado, sente um cheiro muito diferente de todos os que ele até então tinha conhecido. Podia, quem sabe, ser um perigoso e desconhecido animal da floresta, ou quem sabe, uma divindade a vagar pelo os seus domínios. Escondeu muito bem escondido em um escuro próximo da mata exuberante, como todos os seus sabem e como também lhe ensinara seu corajoso e sábio pajé. À espreita quis saber de onde vinha tamanha estranheza de cheiro que tomava o ar no entorno das árvores, dos bichos e até da água. Quando tudo tomado e encharcado parecia estar de tanta exalação, que não era de onça, não era de anta, não era de capivara, não era de bicho nenhum, Pocrane começou ouvir um som que se aproximava na sua direção. O barulho, ele tinha certeza, era de um outro índio, talvez um pouco maior ou mais gordo que ele mesmo, mas e aquele cheiro estranho? Como explicar? O que não era possível de entender também era que, pela intensidade do som e do cheiro, não tinha como não estar vendo algo bem na sua frente. Começou achar que aquilo era coisa de pajelança, e o pior sem bebericagem nenhuma. Como assim! Refletiu Pocrane. Um grande e repentino silêncio insistiu em permanecer no ar, agora muito mais carregado. Como que por um passe de uma mágica desconhecida, lentamente é desenhado no ar por uma aranha invisível, e a alguns passos de onde estava escondido Pocrane, a figura de um índio nunca visto dantes, de pele muito clara, tão clara que deixava a luz por ela passar. Sua vista destreinada com tamanha novidade, ainda insistia em não compreender aquela aparição, que rapidamente ganhava o mundo dos vivos. Pelas sabedorias e ensinamentos de seu pajé, Pocrane concluiu estar morto, envenenado de cobra ou quem sabe num transe festivo com os espíritos de algum parente morto. Dentro de tamanha confusão e sem saber ainda ao certa se morto ou vivo estava esqueceu um dos seus pés para fora do seu esconderijo. Uhrrrrrrrrg! Esse foi o som que ecoou pela floresta nascido da garganta do desolado, atrevido e curioso Pocrane. Saiu em disparada, mas já era tarde, pois um fino e desconhecido cipó interrompeu sua respiração e lá se foram seus sentidos do mundo em busca do escuro da morte. Aliviado por ainda estar vivo, a primeira coisa que viu, quando do sono saiu foi não um mais um monte de índios de pele branca e ainda mais assustador todos com a face cheia de pelos como dos macacos que ele tanto conhecia. Algum tempo se passou até que Pocrane descobrisse que dali seria muito difícil escapar sem ceder aos incompreendidos pedidos daquela estranha gente. Como assim! Refletiu Pocrane na sua tradicional maneira de exclamar que até os dias de hoje é inexplicavelmente também uma mania de todos que deste herói esquecido descenderam e ainda habitam a margem de alguns rios próximos as montanhas. Como assim! Uma “água-muito-limpa- e-dura” foi colocada em suas mãos por um daqueles caras-peludas. Deviam ser pajés em suas terras ou tribos, pois Pocrane se viu naquela “água” como nunca se vira antes. Estava perfeito, mais belo que todos de sua tribo. Cabelo longo, muito negro e brilhante, olhos amendoados e vivos, nunca mostrados ou revelados pela água de nenhuma lagoa por mais azul que fosse. Não tinha dúvida de querer um daqueles pedacinhos de “água-dura” para mostrar para todos de sua tribo aquela feitiçaria sem igual. Mesmo sem entender direito os desejos daquela gente ensinou a eles tudo que sabia, danças, remédios, caminhos, comidas, onde encontrar algumas pedras e um monte de outros saberes que Pocrane nunca entendeu bem porque aquela gente queria saber de coisas tão sem importância. Tendo descoberto que quanto mais coisa ensinava e mostrava mais “petit miroir”, ganhava, ensinou tudo, até o que não sabia. Isso mesmo “petit miroir”, é assim que falava aquela gente falante e apressada em conhecer seu mundo e o que divertia e alegrava muito. Pocrane descobriu que quando repetia por várias vezes com um de seus mais novos amigos, um tipo de canto de pajé, todos se alegravam e ainda podia beber uma água escura com gosto de casca-de-pau que também o deixava ainda mais alegre e vibrante como um pajé. Pocrane descobriu que seu amigo, que lhe ensinava a nova pajelança, usava uma longa tanga escura e dois pedaços-cruzados-de-pau dependurado no pescoço, lembrando a forma do arco e da flecha prontos para acertar a caça. Sem mesmo ter pedido ganhou um daqueles pedaços de pau que logo colocou no seu pescoço e o que o agradou ainda mais foi que todos os seus novos amigos ficaram muito felizes com aquele gesto tão simples. A curiosidade era tanta que Pocrane rapidamente começou a compreender a fala dos novos amigos que só lhe davam alegria. Já nem precisa caçar tanta comida como antes. Era só continuar a contar as coisas de seu mundo, continuar a repetir varias vezes as falas do novo pajé, que ganhava, sem muito esforço, comida e bebida muito boa e o que ele mais apreciava, os tais “petit miror”. Ele não entendia porque alguns preferiam dizer “espelhinho”. Vai ver que eram de outra tribo e ai fazer o quê? O mundo é assim mesmo. Numa manhã calma e alegre o cacique branco e peludo decidiu visitar seu povo, o que agradou muito a Pocrane, e o que ele achou até muito natural, depois de tanta amizade e presentes. O certo seria dividir tudo que ele aprendeu e ganhou com seu povo que longe dali ficava. "Je crois en Dieu" berrou bem alto aquele forte e valente cacique, sacudindo sua flecha-de-fogo, quando depois de algumas léguas, viu de longe a beleza daquele chão alto nas entranhas do qual corria o rio onde moravam seus parentes. Pocrane com isso ficou muito agradecido e assustado, pois ele viu um branco fazer coisas parecidas com o que ele e os seus fazem quando estão alegres. “Eu creio em Deus” era o que queria dizer aquela fala gritada. Assim o pajé branco lhe havia ensinado entre uma reza e outra para seu bravo “Dieu”. Mas como assim! Será que mudaram de opinião? Afinal o criador que eles conheciam ficava num lugar muito longe, depois do céu e das estrelas e o mais interessante, aquele pajé branco lhe garantiu que ele e todos da sua tribo também eram filhos daquele tal “Dieu” dono de tudo no mundo. Para quem fizesse o que “Dieu” gostasse estava garantido uma vida sossegada e bonita, como ficar sempre em uma rede na sombra do jequitibá. A única coisa que Pocrane não entendia era que quem sabia de tudo era o branco de tanga longa. Quando ele tinha dúvida do que fazer olhava firme para uma casca-de-pau com soltos pedaços muito finos e cheios de riscos. Olhava e olhava novamente para aquela coisa e cheio de coragem e certezas falava o que podia e devia ser feito para agradar a “Dieu” e também a todos por ali. Muito interessante isso achou Pocrane, pois em sua tribo tinha que ouvir os mais velhos que nem sempre queriam ou estavam para conversa. Passado os anos seus irmãos guerreiros destemidos não mais caçavam os brancos que pela mata passavam a procurar o que ninguém do seu povo ao certo sabia bem o que era. Apareceram muitos outros brancos. Alguns falavam com Dieu, mas quase todos queriam mesmo eram os grãos de areia fina e amarela do fundo do rio onde morava ele e o seu povo. Mesmo tendo trocado o “Dieu” de seus avós e pais, que ele tanto conhecia, pelo o “Dieu” dos novos amigos brancos, mais forte e poderoso, não conseguiu impedir que ele visse o que estava vendo. Mas rápida que a flecha a morte estava levando muito dos seus irmãos, que como ele colecionava “petit miror”. Como assim! Agora que todos de sua tribo, e até as vizinhas com sua ajuda e de seus irmãos, trocaram de “Dieu” e tinham muitos espelhinhos mágicos, não havia motivo nenhum para acontecer aquela tristeza inesperada em tudo que é canto das matas. Quando não era a febre e a tremura que cozinhava o pensamento daqueles guereiros era a flecha-de-fogo que levava amarrado muitos dos seus para outros caciques e quem sabe outros pajés. “Je ne crois pás en Dieu!” Exclamou Pocrane. Como assim! Em um delírio último viu “guapo” gemendo rasgando a mata virgem pelos vales até as montanhas mais altas; viu coisas que nem estavam guardadas naquela casca-de-pau de segredos sem fim. Pocrane é apenas uma lembrança marcada em um canto quase perdido nas redondezas do pico de nome “jecroa”, como assim o batizaram os botocudos, situado nas entranhas das montanhas dos restos de matas frias das Gerais.

*Se o dito acima por acaso vier a dar forma a alguma outra estória que não esta, não passa de mera possibilidade e especulação estética.

** As fotos da primeira para a última tem créditos de: Spencer Tunick; Regis Gonçalves e um autor descohecido.
4 de Dezembro, mais uma mostra do Estúdio-11.

27.9.09

Porque temos medo da crítica.


"O que é novo é alvo de oposição porque a maioria não se dispõe a aprender; o que é sabido é rejeitado porque não se considera suficientemente o fato de que os homens precisam, com mais frequência ser lembrados do que informados. Os eruditos têm receio de expressar a própria opinião prematuramente para não arriscarem a sua reputação; os ignorantes sempre se imaginam dando prova de sutileza, quando se recusam a ser contentados: e aquele que alcança reputação vencendo todas essas obstruções deve reconhecer a influência de outras causas, além de sua própria diligência, do seu saber ou da sua sagasidade"

( Samuel Johnson, "The Rambler" 1750)



"Sabedoria é vendida no mercado público, aonde ninguém vem comprar, ou no campo estorricado onde o lavrador ara a terra em vão."


(William Blake 1794)


"Pelo menos, o teatro poderia voltar a ser uma instituição para o deleite de pessoas cultas. Enquanto esperamos tal teatro acho que devemos continuar escrevendo para o "estoque", preparando o repertório do futuro. Fiz uma tentativa ! se for um fracasso ? bem, há muito tempo para tentar novamente !"


(August Strindberg , 1888)



Os gregos, inventores das olimpíadas, do teatro e da filosofia, desde muito cedo perceberam o mundo das coisas e suas possibilidades como o resultado de um processo dialético. Sófocles, Eurípedes e Ésquilo dificilmente seriam conhecidos nos dias de hoje se não tivessem ultrapassado as exigências dos jurados, curadores e público dos festivais de teatro que por mais de 100 anos aconteceram em Atenas. Desde muito cedo criaram academias para o aprimoramento do corpo e a mente de seus cidadãos. O que tem desabonado a atividade da crítica que a tornou tão obsoleta assim? Por que só a alguns poucos é dado o direito a crítica? Por que ser tão elegante se acreditamos neste ou naquele trabalho? Por que a crítica publicada é vista como uma ofensa pessoal e não como uma possibilidade de revisão, aprimoramento ou mesmo uma destiladora de nossas certezas? Por que a crítica contrária as nossas expectativas é tida como amadora e a favorável é dita como profissional? Por que a crítica no Brasil faz vista grossa ao engajamento da arte na inclusão social em especial aquelas patrocinadas pela lei de incentivo? Por que os patrocinadores preferem a arte inclusora e o artista domesticado e passivo? Por que a arte livre, questionadora e descompromissada assusta tanto? Onde encontrar um patrocinador que admira e exalta a arte livre como possibilidade e sugestão de revisão do estado e até do seu negócio? Como fazer uma arte que seja ao mesmo tempo evangelizadora e inclusiva e ao mesmo tempo arte como sonha o estado e a grande maioria dos patrocinadores? Como explicar a onda de transparências na administração das grandes corporações e a falta de incentivo a critica na arte de seus patrocinados? Como ser patrocinado, não aceitar a intromissão do patrocinador, fazer arte e não perder a amizade do inocente patrocinador? Por que o estado e mesmo o patrocinador não usam e incentivam a crítica como um complemento destilador do trabalho artístico e do artista e até mesmo como uma necessidade para continuidade do patrocínio? Será que ser patrocinado tem a ver com não criticar e não ser criticado? Gostaria de poder ter todas as respostas... infelizmente não tenho... sinto apenas que a seleção das coisas e até dos bichos precisam de antíteses ou críticas que levam a sínteses que por sua vez garantem a sobrevivência dos mais aptos, inclusive na arte. Podemos quem sabe estar diante da morte da arte dos iluminados ou daqueles que ainda acreditam serem enviados do criador, portanto não criticáveis, para com sua arte incluir, guiar e dar um sentido para toda humanidade. Ainda algumas perguntas. Como ser um trágico se já tenho o paraíso garantido pelas utopias religiosas que cada uma a seu modo fundou céus sem precedentes? Se você leitor tem alguma resposta para algumas destas perguntas que tal exercitar o seu trágico ? Onde estão nossas Antígonas e Ulisses que souberam ser todo na sua individuação?

 
enfim, pedirei encarecidamente a quem ler esse suspiro, deixe seu recado. Por aqui somos apenas seres sem preceitos, ao contrário do que vcs andam vendo por ai!